quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O rio que passa dura


(Rio Tâmega, Minho)



O RIO que passa dura
Nas ondas que há em passar,
E cada onda figura
O instante de um lugar.

Pode ser que o rio siga,
Mas a onda que passou
É outra quando prossiga.
Não continua: durou.

Qual é o ser que subsiste
Sob estas formas de 'star,
A onde que não existe.
O rio que é só passar?

Não sei, e o meu pensamento
Também não sabe se é,
Como a onda o meu momento
Como o rio [?]

Fernando Pessoa

Objectivo de inicio de periodo: Efrentar as ondas deixadas por Pessoa.
Auto-propostas: Não só compreender os seus poemas, como tambem fazer reflexoes sobre o mesmo.
14 de Janeiro, 2009

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Outras Realidades


(Mondim de Basto, Trás-os-Montes)

Já no final das aulas do primeiro período fui surpreendido pelos meus pais de que iria passar uns dias em família no Minho. Fiquei super chateado. Não que não goste desta zona do país, até porque para ser franco não conheço, contudo não era o que mais desejava para o inicio de umas férias tão curtas, as férias de Natal. O ideal era passar vinte e quatro sob vinte e quadro horas dentro de água, a surfar, até que os meus dedos se enrugassem de tanto frio.

Contudo já no dia de chegada deparei-me com outras realidades de água. A água em estado de rio. A água em estado de chuva. A água em estado de orvalho. Tudo realidades desconhecidas no meu mundo*.

Por isso este período pretendo não só abordar o mar, as ondas ou o surf, como já tem sido meu costume, como também escrever sobre rios, riachos ou ribeiros.

*o mundo a que me refiro é o blogue que estou a escrever

9 de Janeiro, 2009


Acordo cedo, sempre cedo

(Barbas, Costa da Caparica, Luís Pedro, Foto Afonso Botelho santos)

Acordo no cedinho. Olhei para o relógio da minha mesinha de cabeceira e encaro a realidade: Não dormi mais de seis horas, e isso nota-se na forma de andar, após me ter levantado da cama.

Para mim dormir é uma das coisas fundamentais para conseguir viver em plena felicidade. Contudo existe algo que me faz levantar às seis da manha, mesmo que pouco tenha dormido. O mar. Até bem há pouco tempo dizia esta frase, mas substituindo a palavra mar por surf.
Pois bem, hoje acordo mas não para surfar. Devido a uma enorme dor de ombro e também por concelho do médico, sou obrigado a não poder praticar qualquer esforço físico com o braço.
Há mais de dois anos que pratico o mesmo hábito. Acordar cedo, apanhar o autocarro, e dirigir-me de encontro às ondas. Contudo hoje acordei para ficar na praia. Vestido e equipado com a minha máquina nova, da qual tanto me orgulho. Desta feita não acordei para acompanhar os meus colegas de sábado de manhã. Isto é: acordo para ficar a pisar a areia molhada acabada de repor nas praias da costa da Caparica.
Estou na praia do Barbas. Está um frio que me faz tremer momentaneamente. Ao fundo junto do pontão encontra-se uma onda estupenda, que por ser quase perfeita me faz quase despir a roupa e também entrar. Como é possível, no dia que não posso entrar dentro de água estar aquela esquerda espectacular. Contudo pego na minha câmara e troco rapidamente de objectivas, para que possa alcançar a onda com uma qualidade e um zoom superior.
Já completamente preparado início a minha sessão fotográfica. O meu modelo é aquilo que embora não possua vida, faz viver muita gente. Porei eu dizer que sou um “maródependente”? Pois admito-o que sim. Não passo uma semana sem pelo menos o ver, e quando infelizmente isso me acontece por razões que a mim me ultrapassam fico pior que estragado. Passo a semana seguinte chateado, triste, mal-humorado (é terrível quando isso acontece.)
Desta vez decidi encarar a água do lado terrestre. Já em cima das rochas pretas e bicudas que teimam em arranhar-me começo a fotografar os grandes surfistas. Aqueles que me fizeram entrar neste mundo. Aqueles que ainda me fazem permanecer na luta contra as ondas. Aqueles de quem ao lado tanto gosto de permanecer.


9 de Janeiro, 2009

Abrimos as comportas

(Rio Tâmega, Minho)


Pois bem, ao fim de cerca de um mês de silêncio, venho por este meio anunciar que abrimos novamente as comportas da barragem. Águas que há muito esperam por regar campos, árvores e flores!
Este ano, (e desde já um óptimo ano 2009) pretendo trabalhar ainda com mais empenho neste trabalho que tanto me agarrou ao computador no período passado (relembro que este trabalho vem no intuito de uma disciplina escolar).
Um excelente ano e que este seja banhado com muita água.

9 de Janeiro, 2009

domingo, 16 de novembro de 2008

Reflexão

(preto no branco, Sara Faro)

22

"Mas depois que de todo se fartou,
O pó que tem no mar a si recolhe,
E pelo céu chovendo enfim voou,
Por que co a água a jacente água molhe:
Às ondas torna as ondas que tomou,
Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
Vejam agora os sábios na escritura,
Que segredos são estes de Natura.

23

"Se os antigos filósofos, que andaram
Tantas terras, por ver segredos delas,
As maravilhas que eu passei, passaram,
A tão diversos ventos dando as velas,
Que grandes escrituras que deixaram!
Que influição de signos e de estrelas!
Que estranhezas, que grandes qualidades!
E tudo sem mentir, puras verdades.
(Camões, Luís. Os Lusíadas, Canto V: Fogo de Santelmo e Tromba Marítima)


Foi um blogue curto. Pelo menos mais curto do que pretendia inicialmente. Dou este “Post” como último, e finalizador do blogue, visto que o trabalho está no âmbito de uma disciplina escolar, possui um início e um fim. Esse fim aproxima-se e tenho que fazer uma pequena (coisa que acabo sempre por não cumprir) reflexão sobre este meu trabalho.

Ao longo de todo este trabalho procurei escrever e relacionar diversos textos d’Os Lusíadas (e outros) com este elemento tão simples e ao mesmo tempo tão essencial para a nossa existência.

Iniciei o trabalho com uma pesquisa sobre os símbolos que podemos conectar com a água. Com as ondas ondeando fui prosseguindo os meus textos, que insistentemente acompanhei com fotografias, pois não seria eu um aluno de artes se não considerasse a imagem um elemento importante.

Já o afirmava, mas agora, após pensar um pouco, concluo que metade da minha alma é feita de maresia, e que sem ela nunca conseguiria viver. Viver no verdadeiro sentido da palavra. Não limitar-me a respirar e passear pelo meio deste enorme conjunto de prédios que esconde o verde dos montes e o azul do mar.

Voltei a ler o meu texto sobre o mostrengo. Peço desculpa se de alguma forma ofendi alguém. Julgo apenas ter mostrado a minha perspectiva. Contudo queria reforçar a minha ideia de pedir desculpa, pois mostrengos somos todos nós, quando observados pelo desconhecido.

Sintra foi um encanto. Sintra é, e sempre será um encanto. Com todas as suas características. Mesmo com a sua humidade que uns repelem mas que tanto me atrai.

Um blogue que é um pouco de nada, que pode vir a ser tudo. Para mim escrever este blogue e iniciar-me realmente no mundo da literatura foi importante. Uns quantos gatafunhos de palavras que me fizeram pensar e assim mostrar o meu lado aquático, que nem eu conhecia. Julgo mesmo não o conhecer verdadeiramente, e é por essa mesma razão que considero que estes textos são nada, que dão início a um todo.

Guardo assim no meu búzio, a ideia de vir a prosseguir com os meus textos e as minhas pequenas reflexões.

Peço que continuem a existir aqueles que são considerados velhos do Restelo, para que os novos prossigam e reforcem as suas ideias progressistas.

Já Camões dizia: “Que grandes escrituras que deixaram”, todos aqueles que sobre água escreveram. Eu fui mais um. Mais um que se limitou a falar da sua água. Não me comparo a nenhum daqueles grandes que sobre a água reflectiram, mas sim um ser humano que dá inicio à sua existência.

Muito ainda ficou por escrever, mas eu tornarei às ondas que tomei, tal como Camões: “Às ondas torna as ondas que tomou,”

Acho que a mim me resta apenas agradecer.

Tromba Marítima

(tromba d'água, Lester Kuhn)

De forma a entender um pouco melhor este fenómeno que se sucedeu durante a viagem de Vasco da Gama e de toda a sua tripulação até ao Oriente decidi recorrer a alguns dicionários. De seguida transcrevi alguns excertos, para que também os meus possíveis leitores possam perceber melhor este episódio d’Os Lusíadas, de Luís de Camões.

“Fenómeno meteorológico que consiste na formação de grande quantidade de vapor de água, em nuvens espessas que se movem, formando um cone cuja base é voltada para o alto;”
(HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles; FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Temas e Debates: Lisboa, 2003)

“Turbilhão de vento cuja presença se manifesta por uma coluna nebulosa ou cone nebuloso invertido em forma de funil, que emerge da base de um cumulonimbo, e por um tufo constituído por gotículas de água levantadas da superfície do mar. Tem dimensões menores que um tornado. Estes turbilhões, embora pareçam absorver água do mar, o certo é que são constituídos por água doce resultante da condensação do vapor de água do mar. Formam-se sobre as águas oceânicas quentes das regiões tropicais e subtropicais nas proximidades das costas.”
(COLAÇO, Jorge et al. A Enciclopédia. Madrid: Verbo, 2004)

Estava-se co as ondas ondeando

(waves, Joana Correia)
18

"Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e coisa certo de alto espanto,
Ver as nuvens do mar com largo cano
Sorver as altas águas do Oceano.

19

"Eu o vi certamente (e não presumo
Que a vista me enganava) levantar-se
No ar um vaporzinho e subtil fumo,
E, do vento trazido, rodear-se:
Daqui levado um cano ao pólo sumo
Se via, tão delgado, que enxergar-se
Dos olhos facilmente não podia:
Da matéria das nuvens parecia.

20

"Ia-se pouco e pouco acrescentando
E mais que um largo masto se engrossava;
Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
Os golpes grandes de água em si chupava;
Estava-se coas ondas ondeando:
Em cima dele uma nuvem se espessava,
Fazendo-se maior, mais carregada
Co'o cargo grande d'água em si tomada.

21

"Qual roxa sanguessuga se veria
Nos beiços da alimária (que imprudente,
Bebendo a recolheu na fonte fria)
Fartar co'o sangue alheio a sede ardente;
Chupando mais e mais se engrossa e cria,
Ali se enche e se alarga grandemente:
Tal a grande coluna, enchendo, aumenta
A si, e a nuvem negra que sustenta.

(Camões, Luís. Os Lusíadas, Canto V: Fogo de Santelmo e Tromba Marítima)